Sexta-feira
Terça-feira
Segunda-feira
Oswald - Atos Literários, de Roberto Corrêa dos Santos

Este livro foi produzido artesanalmente nos idos de setembro de 2000, na cidade de Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, a enxó lavrei-o, a formão dei-lhe os acabamentos, fazia sol nas franjas do Ocidente, havia algaravia de meninos oswaldianos, sedentos de luz, muitos homens e mulheres parados nos arredores, inútil esquecer que havia combates, inda assim fiz o livro para os olhos e as janelas do tempo.
Imaginação e Traço, de Roberto Corrêa dos Santos

Este livro foi produzido artesanalmente entre os meses de julho e agosto de 2000, na cidade de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, Brasil, a fogo baixo e lento, entre um banho-maria e um ponto de calda, contíguo a uma tábua de especiarias, com o traço exímio de fios d´ovos, entre folhas de hortelã colhidas de véspera, o cominho em estado de graça, a vinha d´alhos à espreita, sob as bênçãos de um tinto de Bordéus, na paz do santíssimo deus das misturas e dos temperos, amém.
Terça-feira
Sexta-feira
Quarta-feira
Domingo
Na Frente do Coração, de Ruth Silviano Brandão
Capa de Na frente do coração, da ensaísta, ficcionista, poeta e professora de literatura Ruth Silviano Brandão. O livro é a mais recente artesania (ou doidice) da Edições 2 Luas. E foi lançado à luz prenhe dos dias logo agora no último mês de junho. Os alinhavos, os cortes, as feituras, os prumos, os trapézios, os equilíbrios, as equações e os teoremas, tudo isto que faz parte da manufatura de livros, sim, tudo isto deu muito prazer a este feitor de nuvens.Terça-feira
A FLAUTA E O AUTOMÓVEL

Capa de A flauta e o automóvel,de Lucas Baldus, poesia, Edições 2 Luas, Belo Horizonte, 2003. Fazer este livro foi néctar de fruta. Sim, porque tanto o autor quanto o feitor das artesanias que deram origem ao livro são andarilhos de ruas e cidades, são pessoas sem lataria, sem retrovisores. São da flauta e, não, do automóvel. O livro de Baldus é, assim, uma homenagem ao vagar sem rumo, homenagem aos pés escreventes, ao caminhar pelos abertos de uma cidade.
Sábado
"OUTRAS ÁGUAS", DE PAULINHO ASSUNÇÃO

Eis a capa do livro Outras águas, lançado em 2000 pela Edições 2 Luas, esta que é mais uma das mais saborosas formas de se fazer um livro: sem a pressa da indústria, sem a pressa das máquinas, sem as pressões do mercado, sem as aflições do relógio. Tudo pelo sabor das artesanias.
O texto completo deste livro, um livro costurado e colado pelos primitivos ofícios da encadernação, encontra-se arquivado em Paulinho Assunção: Works (http://paulinhoassuncao.blogspot.com). A imagem da capa é uma Roda da Escrita, transformada aqui em uma quase iluminura.
Quinta-feira
A MENDIGA, de Lucia Castello Branco

Este livro foi produzido pelas vias da artesania logo na entrada das luas de julho. O livro cabe na palma da mão e cabe no bolso da camisa. A autora nasceu no Rio de Janeiro igualmente durante as primeiras luas de julho. Mora em Belo Horizonte e é mãe de Júlia e David.
Escreveu muitos outros títulos, entre ensaio, ficção e textos para pessoas em estado de criança. Compartilha ainda seus conhecimentos há mais de duas décadas como professora de literatura da UFMG. Dirige automóvel e usa pantufas azuis.
Sexta-feira
VISITA AOS ARQUIVOS

Capa do livro Escreventes, de Paulinho Assunção, publicado pela Edições 2 Luas a partir de 1998, com sucessivas reimpressões de 20, 30 ou 40 exemplares, conforme o sol, conforme a lua, conforme o dia, conforme a noite. As imagens da capa são repetidas em papel vegetal no miolo e prestam uma homenagem às línguas que chamo de visuais, como o árabe.
UMA CONCHA A CAMINHO DE LIVRO?
Esta concha vinda de longe, concha com uma estranha roupa, talvez uma roupa de festa, talvez uma roupa de núpcias, esta concha, talvez, possa um dia se tornar livro, possa se vestir de livro, possa entrar dentro de um livro.
Três pinceladas de tinta acrílica ela recebeu em certa manhã de maio. E agora, agora que maio termina, ela é uma concha outra, não mais a concha do mar, mas concha que paira no centro de um mínimo universo, beiradas de um buraco negro, beiradas de um minúsculo planeta, na rota de uma mínima estrela.
Que concha é esta então a caminho de ser a página de um livro? Que concha é esta solta no ar, aeroplana concha, concha agora em duas luas convertida, com suas duas luas que são as abas de suas duas páginas calcáreas?
A AMPULHETA E O LIVRO
O tempo gasto para a produção de um livro é sempre um tempo ilusório, razão por que não se pode aplicar aqui termos como mensurável ou incomensurável.
Um livro jamais está pronto ou feito ou acabado. Todo livro está sempre a caminho — a caminho de onde, nunca saberemos.
O ato de escrevê-lo jamais termina; o ato de confeccioná-lo jamais chega ao fim. Toda e qualquer palavra que se põe em um livro é sempre uma palavra-semeadura. Todo e qualquer gesto usado para produzi-lo é sempre um gesto-semeadura.
Não há, portanto, medidores de tempo aplicáveis ao livro. A existência em trânsito e a existência sempre movente do livro tornam inúteis tanto os relógios quanto as ampulhetas.
Terça-feira
KAFKA EM BELO HORIZONTE, de Rubem Focs

E de repente o escritor Franz Kafka passou a ser visto em Belo Horizonte. E de repente todas as portas foram abertas para as núpcias do real com o imaginado.
Kafka encontra Fernando Pessoa, encontra Murilo Rubião, traz James Joyce, lê diariamente o jornal SENTINELA DORMINDO, viaja pelas ruas da cidade na companhia dos legionários João Serenus, Vicente Gunz, Lucas Baldus, Cida La Lampe, Mulher da Aura Azul, Vicente Almas, Severus Cândido e Rubem Focs.
A cidade, com os seus paradoxos, com a sua provinciana vaidade, sua idiotia galante, sua pomposa pequenez, parece dormir enquanto esses seres do avesso caminham de um lado a outro, a esmo, sem rumo, talvez só pelo prazer de andar e ver, talvez só pelo prazer do homem no meio da multidão.
Domingo
CORTAR PALAVRAS OU CORTAR PAPEL
Você dobra as páginas do que será o livro, dobra-as com a ajuda de um toquinho de madeira feito com a cumplicidade sempre pronta de seu filho, vê que as páginas estão bem dobradas, bem vincadas, prontas para o corte.
E então, com os gomos do livro como se o livro fosse uma fruta (uma fruta de gomos; uma laranja, por exemplo), você vai até a guilhotina e, ali, ajusta o gomo a ser cortado, analisa centímetros e milímetros, analisa bordas, cantos e recantos.
E vem a dúvida: você estará cortando papel ou palavras? Qual é o mistério de uma ou outra tarefa? Qual é o mistério de um ou outro corte?
Na guilhotina, simples guilhotina de faca, guilhotina manual e rudimentar, você vai produzindo as páginas do que, mais adiante, será o livro sobre a mesa. Você vai inaugurar a manhã de um livro, você vai inaugurar a manhã de um livro e não sabe a diferença entre cortar papel e cortar palavras.
E o livro, livro ainda destituído de roupa, ainda destituído de capa, começa a agir na paisagem, começa a ser, começa a ter lugar na luz que vaza pela janela e vem, vem de pouco em pouco, janela adentro, vem afirmar a necessidade e a urgência das manhãs de um livro.
A manhã do livro começa a ser inaugurada, mas você continua em dúvida: terá cortado papel ou terá cortado palavras?
Quinta-feira
Livro dos Quereres, de Lucas Baldus
"O homem de terno azul quer o olhar castanho da mulher de branco. A mulher de branco quer um carro vermelho para morrer de amor numa estrada da Itália.
Eu quero uma mesa grande, de madeira toscamente lavrada, sobre a qual possa colocar uma dúzia de canetas, um cinzeiro, uma xícara com café forte e quente, uma pilha de dicionários e uma folha em branco, veementemente em branco, desafiadoramente em branco".
Esta é a página de abertura do Livro dos Quereres, de Lucas Baldus, publicado em 1998 pela Edições 2 Luas, em um tempo, tempo dos primórdios, em que os livros ainda eram grampeados.
Eu quero uma mesa grande, de madeira toscamente lavrada, sobre a qual possa colocar uma dúzia de canetas, um cinzeiro, uma xícara com café forte e quente, uma pilha de dicionários e uma folha em branco, veementemente em branco, desafiadoramente em branco".
Esta é a página de abertura do Livro dos Quereres, de Lucas Baldus, publicado em 1998 pela Edições 2 Luas, em um tempo, tempo dos primórdios, em que os livros ainda eram grampeados.
Terça-feira
LIVRO DE CENAS FULGOR, de Lucia Castello Branco

Best seller da Edições 2 Luas, este livro alcançou até agora uma tiragem aproximada de 600 exemplares, todos feitos um a um, devagar, lentamente, desde 1999.
A aquarela da capa é de autoria da artista plástica Maria José Boaventura, a Marijô, ela que também cedeu imagens para o miolo, entre as quais uma moldura, também em aquarela, ali onde depositei o lusco-fusco de uma folha seca.
LIVRO TAL QUAL UMA CASA
Muitas vezes, ao fazer um novo livro, ao paginá-lo, ao dobrar as páginas do seu miolo, ao cortar as suas páginas com os movimentos desengonçados e primitivos de uma velha guilhotina, ao inserir nele, aqui e ali, uma e outra ilustração em papel vegetal, ao vincar a capa, ao costurar os gomos e depois colá-los uns nos outros, sinto-me como quem levanta uma casa, uma mínima casa, uma casa, porém, capaz de abrigar leitores especiais, bons destinatários de uma carta vestida de livro.
A MENOR EDITORA DO MUNDO
Fazer livros como quem faz o pão, como quem faz o brinquedo para as crianças.
Assim produzo, desde 1998, os títulos da Edições 2 Luas, uma editora tão pequena que cabe numa pasta de colégio e cujo parque gráfico se resume a um velho computador, duas impressoras antigas, pegadores de papel, guilhotina manual, cola, agulha, linha, um vincador, duas dúzias de tabuinhas de encadernar, uns toquinhos de madeira para a dobra do papel e nada mais.
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